A grafia correta é Policlínica Zeno Lanzini, em homenagem ao médico sanitarista Zeno Lanzini, ex-servidor da SUSAM e professor da UFAM. A unidade foi inaugurada em 3 de fevereiro de 2004, durante o governo Eduardo Braga, com a médica Sandra Cardoso S. Furtado como primeira diretora. Desde pelo menos aquele ano, porém, portarias de dotação orçamentária geradas pelo módulo financeiro da SEFES/SES-AM registram o nome como “LANZINE”, com E. Nas fontes examinadas, a grafia incorreta permanece replicada nas bases usadas para acompanhar a execução financeira da unidade.
Reportagem baseada no Dossiê Técnico e no Relatório de Verificação Processual da Policlínica Zeno Lanzini (UG 017118, exercícios 2018-2026), em pesquisa complementar no Diário Oficial do Estado do Amazonas, nos registros do Portal da Transparência do Estado do Amazonas e na Receita Federal (minhareceita.org). Os dados apontam padrões que pedem verificação documental; não comprovam, por si sós, irregularidade.
Quem foi Zeno Lanzini
Atos legais assinados pela direção da unidade, portarias e extratos de contrato examinados usam de forma consistente a grafia “Lanzini”. A própria indexação do Diário Oficial classifica os atos sob “Policlínica Zeno Lanzini”. Já o módulo orçamentário registra “Lanzine” de forma recorrente desde pelo menos 2004. O achado demonstra inconsistência cadastral persistente; não permite, sozinho, concluir que ela tenha alterado pagamentos, contratos ou a execução orçamentária.
Uma sucessão de diretores com uma lacuna que encolheu, mas não fechou
A Policlínica teve ao menos dois diretores gerais identificados com segurança no período recente: Maria Goreth da Silva Strahm, que já respondia pela unidade em 2017 segundo decisão do TCE-AM e aparece na gestão a partir de novembro de 2018, e Fábio Manabu Martins Shimizu, identificado como diretor geral pela Carta de Serviços de março de 2022 e ainda indicado na edição de junho de 2024. A transição entre as duas gestões não foi integralmente reconstruída pelas fontes consultadas, e não foi localizada no Diário Oficial portaria formal de nomeação de nenhum dos dois. A ausência de localização não demonstra inexistência dos atos; delimita a lacuna documental da pesquisa.
Uma rede que ultrapassa a própria unidade
Segundo nota de imprensa da SES-AM, a Policlínica atende cerca de 20 mil pacientes por mês na zona leste de Manaus. Uma extrapolação aritmética sugeriria cerca de 240 mil atendimentos em doze meses, mas nenhum documento oficial examinado confirma diretamente esse total anual. A unidade está registrada no CNES sob o código 3042626 e vinculada ao CNPJ mantenedor da SES-AM/SUSAM, pois não opera com CNPJ próprio.
A Zeno Lanzini também recebe serviços de contratos de rede que abrangem diversas unidades da SES-AM, como postos de portaria com a DINAMICA Serviços Empresariais, atendimento em Psiquiatria com a Sociedade de Clínica Médica do Amazonas/COOPERCLIM, segurança patrimonial com a LOCATI e credenciamento em Ortopedia e Traumatologia com quatro prestadores. Nas fontes examinadas, não foi localizado rateio individualizado que permita atribuir à Zeno Lanzini parcela específica do valor total desses contratos-guarda-chuva.
O fio que liga as reportagens desta série
Separadamente, os achados desta série tratam de temas distintos: pagamentos recorrentes em rubricas indenizatórias, fornecedores com lacunas de vigência publicada, decisões antigas do TCE-AM, divergência entre bases financeiras e inconsistência cadastral no nome da unidade. Reunidos, eles justificam atenção aos mecanismos de registro, transparência e controle, mas não autorizam concluir que exista uma única causa ou responsabilidade comum. A grafia “Lanzine” funciona como exemplo simples de informação administrativa que permaneceu divergente por anos entre sistemas oficiais.
Perguntar Não Ofende (E o Cidadão Quer Saber)
• À SES-AM e à SEFAZ-AM: qual cadastro alimenta a grafia “LANZINE” nas portarias e bases orçamentárias, e por que a divergência persiste?
• Há plano de correção retroativa ou de padronização do nome da UG 017118 nos sistemas financeiros e de transparência?
• Quais atos formalizaram as nomeações e exonerações dos diretores gerais no período em que a transição não foi integralmente reconstruída pelas fontes públicas?
• Nos contratos de rede, é possível disponibilizar o rateio ou a medição específica dos serviços efetivamente destinados à Policlínica Zeno Lanzini?
• Que mecanismo de governança de dados garante hoje que nomes, responsáveis, contratos e valores estejam consistentes entre CNES, Diário Oficial, SES-AM e SEFAZ-AM?
FECHAMENTO
O erro no nome não é, por si só, indício de desvio, pagamento indevido ou falha assistencial. É uma inconsistência cadastral verificável: atos e documentos administrativos usam “Zeno Lanzini”, enquanto o módulo orçamentário examinado registra “Lanzine” de forma recorrente desde pelo menos 2004.
A série também encontrou lacunas na reconstrução de nomeações de diretores e na individualização de contratos de rede que atendem múltiplas unidades. Esses limites documentais não autorizam afirmar que os atos não existam ou que a Zeno tenha recebido valores diferentes daqueles devidos; mostram apenas que a transparência pública não permite ligar todos os pontos em nível da unidade.
Por isso, o valor jornalístico do erro de grafia é menos o erro em si do que aquilo que ele revela sobre consistência de dados. Um nome divergente que atravessa sistemas e anos pode dificultar buscas, cruzamentos e auditorias, mesmo sem produzir qualquer efeito financeiro material comprovado.
Esta reportagem termina onde terminam os documentos. Eles demonstram a divergência de grafia, os registros de direção localizados e a existência de contratos de rede sem rateio público identificado; não permitem atribuir intenção, dano ou responsabilidade individual pela persistência do erro. Onde há documento, a reportagem afirma. Onde há apenas sinal, identifica-o como sinal. E onde a prova termina, termina também a conclusão.
Fontes
Dossiê Técnico da Policlínica Zeno Lanzini (Achados 1, 4 e 10); Diário Oficial do Estado do Amazonas; Carta de Serviços da Policlínica Zeno Lanzini (edições março/2022 e junho/2024); decisão do TCE-AM sobre as contas de 2017; página institucional da SES-AM.
