R$ 5,57 mi de diferença: duas bases da SEFAZ divergem sobre a Zeno Lanzini

Duas bases produzidas pela SEFAZ-AM para acompanhar a execução financeira da Policlínica Zeno Lanzini apresentam totais diferentes no recorte de 2018 a 2026. A base de notas de empenho individuais soma R$ 9.450.768,71 em valor bruto empenhado. A base de execução orçamentária por natureza de despesa soma R$ 15.016.798,21 – diferença de R$ 5.566.029,50. A divergência, por si só, não indica desvio ou irregularidade: as bases podem ter granularidade e escopos distintos. O ponto ainda não esclarecido nas fontes examinadas é a reconciliação específica entre os dois totais.

Reportagem baseada no Dossiê Técnico e no Relatório de Verificação Processual da Policlínica Zeno Lanzini (UG 017118, exercícios 2018-2026), em pesquisa complementar no Diário Oficial do Estado do Amazonas, nos registros do Portal da Transparência do Estado do Amazonas e na Receita Federal (minhareceita.org). Os dados apontam padrões que pedem verificação documental; não comprovam, por si sós, irregularidade.

Duas fontes, dois números

As duas bases têm granularidade e possivelmente escopo diferentes. A execução pode agregar reforços, suplementações, anulações, restos a pagar e outros movimentos que não aparecem da mesma forma na listagem de notas de empenho individuais. A divergência não configura, por si só, irregularidade, mas impede conferência automática entre as duas fontes e chama atenção pela magnitude.

Uma explicação técnica possível – e o que ela não explica

A Lei federal nº 4.320/1964 organiza a despesa pública em etapas, entre elas empenho, liquidação e pagamento. Relatórios distintos podem agregar eventos contábeis diferentes, o que é uma explicação técnica plausível para totais não coincidentes. O que não foi localizado nas fontes públicas examinadas é uma memória de conciliação capaz de mostrar, rubrica por rubrica e exercício por exercício, como os R$ 9,45 milhões da base de empenhos se relacionam com os R$ 15,02 milhões da base de execução.

Como exemplo meramente ilustrativo do mecanismo contábil, reportagens sobre outro órgão estadual registraram valores inscritos em restos a pagar e executados em exercício posterior. Isso mostra como bases de períodos distintos podem divergir sem que haja desaparecimento de recursos. Não há confirmação de que esse mecanismo, isoladamente ou na mesma proporção, explique os R$ 5,57 milhões encontrados na Zeno Lanzini.

Por que isso importa para quem fiscaliza

A diferença de R$ 5,57 milhões supera o valor individual atribuído a qualquer fornecedor da unidade na série utilizada pela reportagem. Isso não significa que o dinheiro tenha desaparecido ou sido pago indevidamente. Significa que não foi localizada, entre as fontes públicas examinadas, uma conciliação única que permita reproduzir com precisão a passagem de um total ao outro. Para controle social e auditoria, a ausência dessa ponte metodológica dificulta comparar os demais achados da série sobre uma mesma base de referência.

Um problema que não é exclusivo da Zeno Lanzini

Divergências semelhantes entre relatórios de empenhos individuais e de execução por natureza de despesa foram observadas em outros levantamentos de unidades estaduais de saúde. Esse dado é compatível com diferenças metodológicas ou de consolidação das próprias bases, mas não permite atribuir causa específica sem documentação técnica da SEFAZ-AM. Na Zeno Lanzini, a diferença proporcional – a base de execução é cerca de 59% superior à base de empenhos no recorte – justifica uma reconciliação própria e documentada.

Perguntar Não Ofende (E o Cidadão Quer Saber)

• À SEFAZ-AM: quais eventos contábeis integram o total de R$ 15.016.798,21 e não aparecem na soma de R$ 9.450.768,71 das notas individuais?

• É possível fornecer memória de conciliação por exercício, natureza de despesa, reforço, anulação, restos a pagar e demais ajustes?

• As duas bases têm a mesma data de corte, mesma metodologia e mesmo universo de lançamentos?

• À SES-AM e à Policlínica: qual total é utilizado internamente para prestação de contas e acompanhamento da UG 017118?

• O TCE-AM recebe conciliação entre essas bases e, em caso positivo, ela pode ser disponibilizada ao público?

FECHAMENTO

A diferença de R$ 5,57 milhões é um fato matemático produzido pelo confronto de duas bases oficiais no mesmo recorte. Não é, por si só, prova de recurso desaparecido, despesa indevida ou erro contábil. Sistemas públicos podem organizar eventos de execução de formas diferentes, sobretudo quando agregam reforços, anulações, restos a pagar e outros movimentos.

O problema documental é a ausência, nas fontes examinadas, da memória capaz de reconciliar os dois números. Sem ela, o cidadão consegue reproduzir cada total separadamente, mas não consegue demonstrar como um se transforma no outro nem quais eventos respondem pela diferença.

A recorrência de divergências semelhantes em outras unidades é compatível com uma questão metodológica mais ampla, mas essa hipótese também não deve ser tratada como conclusão sem manifestação técnica da SEFAZ-AM. Para a Zeno Lanzini, o achado permanece delimitado: duas bases oficiais, dois totais e uma diferença ainda sem conciliação pública localizada.

Esta reportagem termina onde terminam os documentos. Eles demonstram os dois valores e a magnitude da diferença; não permitem atribuir a ela fraude, desvio ou falha individual. Onde há documento, a reportagem afirma. Onde há apenas sinal, identifica-o como sinal. E onde a prova termina, termina também a conclusão.

Fontes

Dossiê Técnico da Policlínica Zeno Lanzini (Achado 6); Relatório de Verificação Processual (Achado 7); bases EMPENHOS-017118 e EXECUCAO-017118, SEFAZ-AM; Lei federal nº 4.320/1964.

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