Base de 2 de julho de 2026 reúne 596.047 solicitações; relatório aponta lacunas de classificação e filas prolongadas.
Por Redação Investigativa
Base documental: relatório técnico da Fila de Espera SISREG – Central de Regulação de Manaus, extração de 02/07/2026.
596 mil solicitações e 1,3 milhão de procedimentos
Um relatório técnico sobre a fila da Central de Regulação de Manaus (SISREG), elaborado a partir de extratos de 2 de julho de 2026, registra 596.047 solicitações pendentes e 1.327.725 procedimentos pendentes. A espera média informada para as solicitações é de 212 dias; para procedimentos, 134 dias.
A diferença entre os dois totais é metodologicamente relevante: segundo o próprio relatório, uma única solicitação pode gerar vários procedimentos. Por isso, os 596.047 pedidos foram adotados como referência primária para volume e tempo de espera. O documento não autoriza tratar 1,3 milhão de procedimentos como 1,3 milhão de pacientes distintos.
O “vazio” que impede saber o que parte da fila aguarda
O achado mais sensível está na qualidade da informação. O relatório registra 379.552 ocorrências sem especialidade ou procedimento identificado, mantidas na categoria “(vazio)”, com espera média de 227 dias e registro mais antigo em 2 de março de 2020.
O percentual de 38,9% usado no relatório refere-se ao universo classificável das categorias, cuja soma chega a 976.877 ocorrências. O próprio documento adverte que essa soma supera o total geral de 596.047 solicitações porque uma mesma solicitação pode aparecer em mais de uma categoria. Portanto, não é tecnicamente seguro afirmar que existam 379.552 pacientes distintos sem classificação.
O que a extração permite afirmar é mais preciso: há 379.552 registros categorizados como “vazio”, e a base apresentada não permite identificar, a partir deles, qual especialidade ou procedimento está sendo aguardado. O relatório recomenda reextração dos dados ou justificativa técnica para a ausência do rótulo.
Neurologia: 61 mil solicitações e média de 508 dias
Entre as especialidades classificadas, Neurologia reúne 61.195 solicitações e espera média ponderada de 508 dias. Dentro desse conjunto, a consulta em Neurologia Pediátrica aparece com 33.446 solicitações e 726 dias de espera média; a teleconsulta em Neurologia Pediátrica soma 1.115 solicitações e 479 dias.
O relatório também registra 14.747 solicitações para Fonoaudiologia Infantil, com 759 dias de espera média; 13.240 para Psicologia Pediátrica, com 616 dias; e 3.646 para Nutrição Pediátrica, com 587 dias. Esses números revelam pressão expressiva sobre serviços voltados à infância, mas, por causa da metodologia de categorização e da possibilidade de uma solicitação aparecer em mais de uma linha, não devem ser convertidos automaticamente em número de crianças únicas.
Até 854 dias em itens específicos
No ranking de itens com pelo menos 100 solicitações, a maior espera média registrada é de 854 dias para Consulta em Cirurgia Plástica – Geral, com 892 solicitações. Em seguida aparecem Cirurgia Ortopédica – Coluna, com 3.771 solicitações e 821 dias; Fonoaudiologia Infantil, com 14.747 e 759 dias; e Cirurgia Ortopédica – Pediatria, com 1.341 e 744 dias.
A Tomografia de Coerência Óptica aparece com 5.890 solicitações e espera média de 588 dias. O relatório técnico associa o exame ao monitoramento de glaucoma e doenças da retina e classifica a demora como achado de risco clínico. A base, contudo, não informa o diagnóstico, a gravidade individual nem a evolução clínica de cada paciente; por isso, a reportagem não atribui desfecho clínico específico à espera registrada.
Registros remontam a 2019 e 2020
O documento informa que a solicitação mais antiga localizada na base remonta a 1º de julho de 2019, em grupo de tomografia computadorizada, enquanto registros sem classificação remontam a 2 de março de 2020. A permanência dessas entradas demonstra antiguidade cadastral da fila, mas a própria recomendação técnica reconhece uma dúvida que precisa ser resolvida: parte dos registros antigos pode representar fila efetivamente não atendida ou falha de baixa de atendimentos já realizados.
Sem auditoria individual das solicitações, a reportagem não afirma que todos os registros antigos correspondam a pacientes que permaneceram ininterruptamente sem atendimento desde a data de entrada.
Onde a demanda se concentra
Diagnóstico por Imagem – Ultrassonografia lidera em volume, com 102.540 solicitações e média de 102 dias. Depois aparecem Oftalmologia, com 69.157 e 143 dias; Patologia Clínica/Laboratório, com 67.223 e 80 dias; Neurologia, com 61.195 e 508 dias; Ortopedia e Traumatologia, com 44.145 e 292 dias; e Cardiologia, com 34.619 e 287 dias.
Segundo o relatório, as seis maiores especialidades concentram aproximadamente 58% da demanda classificada, e as 12 maiores, cerca de 80%. Esses percentuais se referem ao universo categorizado pelo estudo e não devem ser lidos como frações de pacientes únicos sem considerar a nota de reconciliação metodológica.
Perguntar Não Ofende (E o Cidadão Quer Saber)
• Por que 379.552 registros aparecem sem especialidade ou procedimento identificado na extração analisada?
• A Central de Regulação consegue reextrair esses registros com o campo de especialidade/procedimento íntegro e informar quantas pessoas únicas eles representam?
• Quantas das solicitações antigas, especialmente as de 2019 a 2021, continuam efetivamente pendentes e quantas decorrem de falha de baixa no sistema?
• Que medidas estão em execução para as filas de Neurologia Pediátrica, Fonoaudiologia Infantil, Psicologia Pediátrica e Ortopedia Pediátrica?
• Existe protocolo de priorização por risco clínico, além da ordem cronológica, para exames e consultas em que o atraso possa agravar a condição do paciente?
• Qual é a capacidade mensal de oferta nas especialidades com maior combinação de volume e tempo de espera, e qual prazo oficial é projetado para redução do passivo?
• Como a gestão reconcilia o total geral de 596.047 solicitações com as 976.877 ocorrências somadas nas categorias do relatório?
FECHAMENTO – o que os documentos provam e o que não provam
A fotografia documental de 2 de julho de 2026 é suficientemente grave por seus próprios números: 596.047 solicitações pendentes, espera média de 212 dias e especialidades com médias superiores a 500, 600 e 700 dias. Também está documentada a existência de 379.552 ocorrências sem rótulo de especialidade ou procedimento na categorização examinada.
Esses dados sustentam questionamentos objetivos sobre capacidade assistencial, qualidade cadastral, priorização clínica e saneamento da fila. Não sustentam, isoladamente, afirmar que 596 mil pessoas estejam sem qualquer atendimento de saúde, que 379 mil pacientes distintos estejam “perdidos” no sistema, que cada registro antigo represente espera contínua desde 2019 ou 2020, nem que determinado atraso tenha causado dano clínico concreto a uma pessoa identificada.
Há ainda uma fronteira institucional que precisa permanecer nítida: o documento analisado é um relatório técnico produzido a partir de extratos da Central de Regulação de Manaus/SISREG e declara não constituir parecer oficial de órgão colegiado. Suas conclusões devem ser lidas dentro dessa natureza documental.
A força da reportagem está, portanto, naquilo que a base efetivamente mostra: uma fila de grande escala, tempos de espera elevados em áreas específicas e uma lacuna relevante de classificação que precisa ser tecnicamente explicada. As causas administrativas, responsabilidades individuais e consequências clínicas de cada caso exigem documentação adicional e não são presumidas por esta reportagem.
| Esta reportagem termina onde terminam os documentos. |
Onde há documento, esta reportagem afirma. Onde há apenas sinal, identifica-o como sinal. E onde a prova termina, termina também a conclusão.
REGRA DE OURO
Ausência, inconsistência ou antiguidade de registro em base administrativa não equivale, por si só, a inexistência de atendimento, omissão deliberada, ilícito, dano individual ou responsabilidade pessoal. Toda conclusão permanece limitada ao conteúdo, à data e à metodologia das fontes examinadas.
| NOTA: SISREG reúne 596 mil solicitações pendentes; algumas consultas passam de dois anos de espera. |
| RESUMO: Relatório da regulação de Manaus aponta 596 mil pedidos, filas longas e 379 mil registros sem rótulo. |
