A folha de pagamento está congelada desde 2021. Todo o crescimento veio de custeio contratado. Em 2025, equipamento e material permanente representou 0,2% do orçamento executado.
Reportagem baseada em relatórios oficiais de execução orçamentária (2018–2026). Os dados apontam padrões que pedem verificação documental; não comprovam, por si sós, irregularidade.
A Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Amazonas é o órgão responsável pela sanidade animal e vegetal do estado — o que fiscaliza rebanhos, controla o trânsito de produtos agropecuários e responde por barreiras sanitárias. Entre 2018 e 2025, seu orçamento executado passou de R$ 20,3 milhões para R$ 61,6 milhões: alta de 202,9%. No mesmo período, a despesa com equipamento e material permanente caiu 93%.
A folha não explica o crescimento
A hipótese mais simples para uma agência que triplica seria expansão de quadro. Não é o caso. A despesa com pessoal e encargos está estável desde 2021, em torno de R$ 24 a 25 milhões por ano. O que cresceu foi outra coisa: o gasto com fornecedores pessoa jurídica saltou de R$ 10,4 milhões (2018) para R$ 34,3 milhões (2025) — alta de 228,7%. Em 2026, nos primeiros sete meses, os fornecedores já respondem por 62,8% de tudo o que a agência empenhou.
Onde o dinheiro passou a ir
A comparação por elemento de despesa mostra o deslocamento. Outros serviços de terceiros pessoa jurídica passaram de R$ 871 mil para R$ 12,95 milhões (+1.387%). Serviços de tecnologia da informação, de R$ 62,9 mil para R$ 4,94 milhões (+7.749%). Locação de mão de obra, de R$ 179,8 mil para R$ 2,67 milhões (+1.382%). Material de consumo, de R$ 1,84 milhão para R$ 6,14 milhões.
E o que encolheu
Na direção oposta, equipamento e material permanente caiu de R$ 1,77 milhão (2018) para R$ 124 mil (2025) — apenas 0,2% do orçamento executado no ano. Em uma agência de fiscalização, essa rubrica compra veículos, equipamento de laboratório, instrumentos de campo. A leitura possível é a de substituição de capacidade própria por serviço contratado.
A base de fornecedores se renova rápido
Outro dado da mesma série: em 2025, empresas que estreavam naquele ano na agência absorveram 40,3% de todo o empenho a fornecedores — R$ 13,8 milhões, dos quais R$ 8,2 milhões concentrados em um único estreante. Uma agência com contratos de natureza continuada — limpeza, frota, combustível, conectividade — não costuma ter renovação tão brusca da carteira.
A pergunta de política pública
Nenhum desses números é, isoladamente, irregular. Somados, eles descrevem uma escolha administrativa que merece ser explicada: uma agência de defesa agropecuária que triplica de tamanho e para de comprar equipamento está fiscalizando mais ou terceirizando mais? A resposta importa porque o serviço prestado é sanidade animal e vegetal — e o resultado se mede em rebanho fiscalizado e barreira sanitária operante, não em contrato assinado.
Fechamento
Os dados examinados nesta reportagem não autorizam concluir que a evolução das despesas da ADAF tenha ocorrido em desacordo com a legislação. A ampliação do orçamento, a contratação de serviços especializados, a terceirização de determinadas atividades e a redefinição das prioridades de investimento são escolhas que, em princípio, integram o espaço legítimo de discricionariedade da Administração Pública, desde que devidamente fundamentadas e compatíveis com o interesse público.
O que os documentos efetivamente demonstram é uma mudança expressiva na composição do gasto. Ao longo da série histórica, o crescimento orçamentário concentrou-se predominantemente nas despesas de custeio e na contratação de serviços, enquanto os investimentos em equipamentos e material permanente perderam participação de forma acentuada. Trata-se de uma alteração objetiva do perfil da execução orçamentária, cuja avaliação não depende de interpretações, mas da leitura dos próprios registros oficiais.
Essa constatação conduz a uma questão mais ampla do que a simples análise das contas: quais resultados essa mudança produziu para a política pública de defesa agropecuária? O aumento dos recursos destinados ao custeio ampliou a capacidade de fiscalização, fortaleceu as barreiras sanitárias, modernizou a infraestrutura operacional e melhorou os indicadores de desempenho da autarquia? Ou representou apenas uma alteração na forma de aplicação do orçamento? Os relatórios financeiros não respondem a essas perguntas. Elas exigem a análise conjunta dos indicadores de desempenho, dos resultados institucionais e dos documentos administrativos que fundamentaram cada decisão.
É justamente nesse ponto que a gestão pública deixa de ser apenas contabilidade e passa a ser política pública. O orçamento não é um fim em si mesmo. Seu verdadeiro significado está na capacidade de transformar recursos financeiros em serviços públicos mais eficientes, estruturas mais modernas e melhores resultados para a sociedade.
Ao longo desta investigação, os documentos oficiais revelaram tendências, padrões e escolhas administrativas. Não produziram condenações, nem absolvições. Produziram perguntas legítimas. E, em uma democracia, perguntas formuladas a partir de documentos públicos jamais devem ser vistas como um problema. Constituem, ao contrário, uma das expressões mais importantes da transparência, do controle social e da responsabilidade na gestão dos recursos públicos.
Porque a boa administração não se mede apenas pelo volume do orçamento que executa. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de demonstrar que cada real investido produziu valor público, fortaleceu a missão institucional do Estado e deixou resultados concretos que possam ser verificados por qualquer cidadão.
Nota de Redação: : Esta reportagem baseou-se em relatórios oficiais de execução orçamentária (2018–2026). Os dados apontam padrões que pedem verificação documental; não comprovam, por si sós, irregularidade.
O espaço permanece aberto para eventuais manifestações e esclarecimentos por parte das entidades citadas.
