A frota fantasma de R$ 311 milhões: há seis anos o Amazonas paga por ambulâncias que nunca mostrou a placa

Em 27 mil páginas de processos de pagamento, nenhuma placa, nenhum chassi, nenhum CRLV. Em maio de 2026, a frota de UTIs móveis não registrou uma única corrida — e recebeu R$ 3,1 milhões com nota máxima da fiscalização. A ‘emergência’ que justificou contratar sem licitação durou dois anos e meio. E o fiscal de tudo isso, do primeiro ao último contrato, é um único servidor.

Manaus, 4 de agosto de 2026

Há uma frota de 47 ambulâncias circulando por Manaus que pode ser a mais bem paga e a menos vista do Brasil. O Governo do Amazonas desembolsa por ela R$ 6,46 milhões todo mês — R$ 77,5 milhões por ano — a uma única empresa, a WF Control Apoio à Gestão de Saúde e Atividades Empresariais LTDA. O nome é comprido; a papelada, nem tanto. Uma análise integral de 21 processos de pagamento e a triagem de 154 processos desde 2020 — cerca de 27 mil páginas — não encontrou uma placa sequer. Nem chassi. Nem RENAVAM. Nem um CRLV. Em seis anos de contrato e R$ 311,2 milhões empenhados, o Estado nunca exigiu que a frota que aluga provasse, documentalmente, que existe.

Não se trata de dizer que as ambulâncias não existem — os autos não provam isso, e ninguém aqui vai além da evidência. O que os autos provam é coisa diversa e, num certo sentido, pior: o Estado paga sem verificar. Mês após mês, ano após ano, a liquidação da despesa — aquele momento em que a lei (arts. 62 e 63 da Lei 4.320/64) manda o gestor conferir se o serviço foi mesmo prestado — virou um carimbo. Onze dos 21 meses recentes foram pagos sem nenhuma planilha de remoções. Nove, sem relatório de fiscalização. E quando o relatório existe, é o mesmo formulário, com as mesmas marcações, assinado no mesmo dia da nota fiscal.

A ‘emergência’ mais longa do mundo

A história começa como tantas outras na saúde pública brasileira: com uma dispensa de licitação. Em junho de 2020, em plena pandemia, a então SUSAM firmou três contratos emergenciais simultâneos com a WF Control. A lei que autorizava isso — o Art. 24, IV, da velha 8.666/93 — é explícita: contratação emergencial vale por 180 dias, ‘vedada a prorrogação’. A emergência da SES-AM durou dois anos e meio. Dos empenhos de 2020 a 2022 com modalidade identificável, 59 em 63 são dispensa de licitação: R$ 81,1 milhões pagos sem concorrência. O primeiro pregão eletrônico só aparece nos empenhos de 2023 — e, mesmo então, com cinco dispensas residuais de brinde.

Três anos de pregão depois, o desenho não mudou: mesma empresa, valores crescentes, zero concorrentes incomodando. O contrato atual, o 005/2023-SES, já vai no 5º Termo Aditivo e saltou de R$ 61,99 milhões para R$ 77,49 milhões — um acréscimo de 23,5% que encosta, com precisão de relojoeiro, no teto legal de 25%. O lote de UTIs móveis, esse foi além: cresceu 30%, de 10 para 13 unidades, acima do limite. E quando o teto apertou de vez, deu-se um jeito elegante: a 34ª ambulância foi contratada por processo apartado, R$ 75.169,68 por mês, longe das contas do aditivo.

A 34ª ambulância que a fiscalização nunca viu

Essa 34ª ambulância, aliás, merece parágrafo próprio. Ela é paga desde setembro de 2025 — dez competências, cerca de R$ 750 mil. Pois todos os relatórios de fiscalização de setembro de 2025 a maio de 2026 seguem registrando, imperturbáveis, 33 ambulâncias tipo B. A unidade pela qual o Estado paga R$ 75 mil mensais jamais apareceu conferida por quem quer que seja. Paga-se por 34, fiscaliza-se 33, e ninguém — nem o fiscal, nem a GEFIN, nem o ordenador de despesa — achou a conta estranha.

Maio de 2026: a UTI móvel tirou férias, o pagamento não

O achado mais fotogênico da série, porém, é maio de 2026. O anexo de produção daquele mês lista 1.993 remoções — todas de ambulância básica. As 13 UTIs móveis, que custam R$ 241.958,81 cada uma por mês, não registraram uma única corrida. Zero. Nos demais meses com anexo, o lote D faz entre 745 e 885 remoções; em maio, nada. E o que fez a SES-AM diante de uma frota inteira de UTIs paradas? Pagou integralmente: R$ 3.145.464,53, nota fiscal 224, com o Instrumento de Medição de Resultado atestado em gloriosos 100% e glosa zero. Na régua da fiscalização amazonense, o silêncio absoluto de 13 UTIs móveis durante 31 dias é desempenho perfeito.

Um fiscal para chamar de seu

Quem atesta tudo isso? Um homem só. Felizardo Francisco de Almeida Monteiro, servidor da SEA/SES, matrícula 214.398-4, é o fiscal de toda a série recente de contratos — da locação básica à UTI móvel, do aditivo ao processo apartado. É dele o formulário idêntico que se repete mês a mês, assinado na data da nota ou do atesto, contando 33 ambulâncias onde o contrato manda contar 34. Não há, em parte alguma dos autos, escala de equipe anexada, CRM de médico, COREN de enfermeiro ou CNH de condutor — em um serviço em que cada UTI móvel exige, por contrato, os três. A coluna de ‘vínculo’ das equipes está em branco, há seis anos.

Pagar por fora virou método

Quando o contrato não alcança, o Amazonas encontrou um atalho com nome técnico e cheiro antigo: o pagamento indenizatório — a rubrica usada para remunerar serviço prestado sem cobertura contratual. Em 2026, são 8 empenhos rigorosamente idênticos de R$ 175.380,00, um por mês, de fevereiro a julho: R$ 1,4 milhão pago por fora, com a regularidade de uma assinatura de streaming. E não é inovação: desde 2019, a natureza indenizatória 33909301 acumulou R$ 42,09 milhões — 11,1% de tudo o que a SES/SUSAM pagou ao grupo. O ‘excepcional’ é, aqui, o fluxo de caixa mais estável da casa.

Há mais. As competências de setembro a novembro de 2025 foram executadas sem empenho prévio — o que o art. 60 da Lei 4.320/64 proíbe com todas as letras — e regularizadas depois, via Reconhecimento de Dívida assinado em janeiro de 2026. A nota fiscal de junho de 2026 veio com um brinde de R$ 176.410,30: três ambulâncias para o Festival de Parintins, fora do objeto do contrato, sem termo aditivo que as ampare. E dezembro — dezembro simplesmente não existe: nem o de 2024 nem o de 2025 aparecem na relação de processos da GEFIN. Ou foram pagos por um fluxo que os autos não mostram, ou há um buraco de instrução de dois meses inteiros num contrato de R$ 6,4 milhões mensais.

O iceberg: R$ 379 milhões e um portal que só conta a metade

Tudo isso é só a lente dos processos de pagamento. Quando se abre o SIAFEM — o sistema que registra o que o Estado efetivamente pagou —, o quadro engorda: R$ 379,5 milhões pagos à WF Control entre 2019 e 2025, por cinco contratantes da rede de saúde. O Portal de Contratos do Estado, vitrine oficial da transparência, publica R$ 175,2 milhões. A diferença — R$ 204,3 milhões, mais da metade do total — corre por aditivos, execuções plurianuais e instrumentos que ninguém publicou. O cidadão que consultar o portal conhecerá menos da metade da história.

E a empresa que executa esse volume? Capital social de R$ 3,5 milhões — 108 vezes menor do que o que recebeu. Atividade principal na Receita Federal: locação de automóveis sem condutor. O novo sócio-administrador entrou na sociedade em 10 de fevereiro de 2023 — 18 dias antes da assinatura do maior contrato da história da empresa, o CT 5/2023. Coincidência temporal não é prova de nada, registre-se, mas é o tipo de coincidência que uma certidão da JUCEA esclareceria em uma tarde, e que ninguém pediu em três anos e meio.

Detalhe final, para o leitor que aprecia ironia fina: contratos de pregão de 2024, dentro da própria rede estadual, alugam a mesma ambulância tipo B por R$ 72,5 mil (FHAJ) e R$ 83 mil (FMT) mensais. A SUSAM paga entre R$ 90,97 mil e R$ 98,10 mil — 18% a 35% a mais, ao mesmo fornecedor, pelo mesmo tipo de veículo. As análises técnicas da própria SUSAM registram, por escrito, o risco de sobrepreço. Registrar, registraram. Corrigir é outro departamento.

O que falta responder

Este jornal não afirma que a frota não existe, que o serviço não é prestado ou que houve desvio — nenhum juízo de irregularidade está formado, e o contraditório é assegurado a todos os citados. O que se afirma, com 27 mil páginas de lastro, é que o Estado do Amazonas paga R$ 6,46 milhões por mês há anos sem exigir a prova mais elementar de qualquer locação de veículos: a identificação dos veículos. As perguntas que restam caberiam num ofício de uma página. Onde estão as placas das 47 ambulâncias? Onde estão os logs do rastreamento por satélite, que o contrato prevê e que provariam a disponibilidade em cinco minutos? Onde estão os CRMs, CORENs e CNHs das equipes? Por que a UTI parada em maio recebeu nota 100? E quem, afinal, conferiu a 34ª ambulância?

A SES-AM, a WF Control e o fiscal do contrato têm todo o direito de resposta — e, mais do que isso, têm a obrigação dela. O TCE-AM tem os autos. As respostas, se vierem, cabem em meia dúzia de documentos que qualquer locadora de esquina apresenta na assinatura do contrato. O silêncio, esse já dura seis anos e R$ 311 milhões.

NOTA DE MÉTODO E RESPONSABILIDADE — Esta matéria baseia-se no Relatório de Análise v4 (04/08/2026): leitura integral de 21 processos de pagamento (out/2024–jun/2026), triagem de 154 processos (jul/2020–jun/2026, 10.327 anexos) obtidos do SIGED/SES-AM, Notas de Empenho do AFI, execução por credor do SIAFEM/AM (2019–2025), Portal de Contratos do Estado e cadastro da Receita Federal. Todos os valores citados são conferíveis nas folhas indicadas nos autos. Os achados são indícios sujeitos a apuração pelos órgãos de controle; nenhuma acusação está formada contra pessoa física ou jurídica.

SES-AM · fontes primárias · WF Control / locação de ambulâncias · matéria investigativa · versão 1 · 04/08/2026 · [veículo] · [autoria]

Fechamento:

O Governo do Amazonas parece ter descoberto uma nova física administrativa, onde ambulâncias faturam milhões por repousarem em um estado de pura invisibilidade documental. Em um cenário onde 13 UTIs móveis passam 31 dias em absoluto silêncio operacional e recebem nota máxima na avaliação de desempenho, o cidadão amazonense é convidado a aceitar que a eficiência pública se mede pela rapidez em assinar ordens de pagamento, e não pela presença de veículos nas ruas.

O mistério das placas ausentes, dos profissionais sem registro em planilha e daquela misteriosa 34ª ambulância que é paga mas ninguém vê, evoca um enigma matemático que desafia os órgãos de fiscalização. Resta agora aguardar se as autoridades competentes se darão ao modesto trabalho de solicitar a identificação elementar dessa frota ou se o silêncio burocrático continuará operando como a engrenagem mais bem lubrificada de todo esse sistema.

Conforme apontado na Nota de Método, os fatos trazidos constituem estritamente indícios colhidos nos autos dos processos públicos, cabendo unicamente aos órgãos de controle a devida apuração de eventuais irregularidades, sem que qualquer juízo definitivo de culpa seja imputado aos envolvidos.

(Nota da redação: O espaço permanece aberto para eventuais manifestações e esclarecimentos por parte das autoridades e entidades citadas).

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