Uma extensa região do sudoeste da Amazônia pode ter abrigado entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas entre os anos 100 e 300 depois de Cristo, segundo um novo estudo publicado na revista científica Nature.
A pesquisa utilizou imagens obtidas por tecnologia LiDAR, um sistema de escaneamento a laser capaz de atravessar visualmente a cobertura das árvores e revelar alterações no terreno escondidas sob a floresta.
Os cientistas identificaram centenas de estruturas arqueológicas até então desconhecidas e estimaram que mais de 20 mil construções de terra podem existir na região estudada. O levantamento abrange uma área de aproximadamente 183 mil quilômetros quadrados no sudoeste amazônico, incluindo territórios do Acre e áreas próximas do Amazonas, Rondônia, Bolívia e Peru.
As estruturas incluem geoglifos, valas, aterros, plataformas e caminhos construídos por populações indígenas pré-coloniais. Parte desses vestígios possui formas geométricas, como círculos e quadrados, que somente podem ser observadas de maneira completa a partir do alto.
Os pesquisadores denominam esse conjunto populacional e cultural de Aquiry. A estimativa sugere que uma área equivalente a menos de 3% da Grande Amazônia possuía uma população comparável à de importantes regiões do mundo antigo.
A descoberta contesta a ideia, durante muito tempo predominante, de que a Amazônia pré-colonial era ocupada apenas por pequenos grupos dispersos e sem capacidade de modificar significativamente a paisagem.
Os vestígios indicam sociedades organizadas, capazes de mobilizar trabalhadores, planejar construções e manter redes de circulação e produção. A existência de caminhos conectando assentamentos também aponta para relações políticas, econômicas e culturais entre diferentes comunidades.
Isso não significa que os povos antigos destruíram a floresta nos mesmos moldes do desmatamento contemporâneo. As populações indígenas desenvolveram formas de manejo adaptadas ao ambiente tropical, combinando áreas habitadas, cultivos, florestas manejadas e sistemas de circulação.
A pesquisa reforça a compreensão de que parte da biodiversidade encontrada atualmente também foi influenciada pela ação humana ao longo de milhares de anos. Espécies úteis para alimentação, medicina e construção podem ter sido selecionadas e disseminadas por diferentes povos.
Os números apresentados são estimativas científicas e não uma contagem direta da população. Os pesquisadores utilizaram a quantidade e a distribuição dos sítios arqueológicos, dados obtidos por laser e modelos populacionais para calcular o intervalo provável.
Novos levantamentos poderão ampliar ou revisar os resultados. Grande parte da floresta ainda não foi examinada por tecnologias de alta resolução, e milhares de estruturas podem permanecer desconhecidas sob a vegetação.
A descoberta também amplia a responsabilidade de proteger os sítios arqueológicos. Desmatamento, queimadas, abertura de estradas, pecuária e expansão urbana podem destruir vestígios antes mesmo que sejam identificados.
Além da importância científica, o estudo fortalece a contribuição histórica dos povos indígenas para a formação da Amazônia. A floresta não deve ser entendida como um território vazio, mas como uma paisagem ocupada, transformada e preservada por sociedades complexas durante séculos.
