Duas construtoras receberam 24,08% de tudo que a UGPE pagou entre 2020 e 2026; consulta nominal ao SGC não retornou contratos
MANAUS — Duas empresas, sete anos, R$ 638.647.535,92 pagos. É quase um de cada quatro reais desembolsados pela Unidade Gestora de Projetos Especiais — UGPE — entre 2020 e 2026. A primeira recebeu R$ 322,45 milhões; a segunda: R$ 316,20 milhões; juntas totalizaram 24,08% de tudo que a unidade pagou.
Até aí, concentração, o problema documental aparece na outra ponta. Em 25 de agosto de 2026, a investigação consultou o Sistema de Gestão de Contratos da SEFAZ-AM — SGC, utilizando o campo destinado ao nome do contratado e sem restringir a pesquisa à UGPE. A busca não retornou contrato para nenhuma das duas, mas atenção: busca vazia não é contrato inexistente. Essa diferença de apenas quatro palavras é decisiva para esta reportagem.
R$ 638,6 MILHÕES EM DUAS EMPRESAS
A concentração não é pequena. As dez maiores empresas privadas receberam, juntas, aproximadamente R$ 1,13 bilhão, equivalentes a 42,48% do que a UGPE pagou no período. Somente as duas primeiras ficaram com mais da metade desse grupo: R$ 638,6 milhões. E há outra peculiaridade. A empresa que ocupa o primeiro lugar no ranking consolidado aparece na base financeira sob duas razões sociais diferentes, mas com o mesmo CNPJ.
Sob o nome anterior, foram R$ 123,19 milhões, sob o nome posterior R$ 199,25 milhões. Somados totalizam R$ 322,45 milhões. Quem simplesmente ordenar a base pelo nome verá duas empresas; quem consolida pelo CNPJ descobre que é uma só. E ela passa ao primeiro lugar.
QUANDO O NOME MUDA, O RANKING MUDA JUNTO
A mudança cadastral aparece na base na passagem de 2023 para 2024. Até 2023, os pagamentos aparecem sob a denominação anterior. De 2024 em diante, sob a nova razão social. A reportagem original corretamente faz uma ressalva importante: mudança de forma societária não constitui irregularidade.
Empresas mudam de nome, estrutura e organização jurídica, o dado relevante aqui é outro. Quando a consulta pública trabalha pelo nome, a alteração fragmenta o histórico financeiro de um mesmo CNPJ. E não se trata de caso isolado. A apuração encontrou quatro CNPJ registrados sob oito razões sociais durante o período examinado.
O CNPJ permanece, o nome muda e a fotografia que o cidadão vê pode mudar com ele.
O PRÓPRIO ESTADO DIFICULTA A CONTA
O problema começa na estrutura das bases. A base de empenhos não apresenta CNPJ. A de pagamentos apresenta o campo, mas ele possui inconsistências e cobertura limitada. A investigação precisou construir uma correspondência entre razões sociais e CNPJ para consolidar fornecedores.
Com isso, a identificação por CNPJ passou de apenas 3,25% para 59,69% do valor pago. É um detalhe técnico com consequência muito simples: quem procurar apenas pelo nome pode não enxergar quanto uma mesma empresa realmente recebeu.
DOIS CONTRATOS, R$ 211 MILHÕES
As duas empresas também aparecem entre as principais credoras dos grandes pacotes de financiamento da unidade, e uma delas figura nos dois maiores contratos de obra identificados na documentação financeira: CT 007/2022 — R$ 121,03 milhões pagos; CT 007/2023 — R$ 90,04 milhões pagos, totalizando R$ 211,07 milhões.
Os números desses instrumentos constam dos textos dos próprios pagamentos, portanto, novamente: esta reportagem não afirma que os contratos não existam, eles são mencionados pela própria Administração, a pergunta é: onde o cidadão consegue consultar integralmente esses instrumentos?
O PONTO MAIS SENSÍVEL DA APURAÇÃO
Aqui entra nossa blindagem principal. A consulta que retornou vazia foi realizada pelo nome do contratado. Esse tipo de busca pode sofrer interferência de grafia, acentuação, abreviação, alteração da razão social e sufixos empresariais. A própria investigação registra expressamente essa limitação e recomenda repetir a consulta por CNPJ e variantes de grafia. Logo, seria excessivo escrever: “As empresas não têm contratos.” Também não adotaremos, nesta versão, como afirmação absoluta: “As empresas não têm nenhum contrato registrado no Estado.” O documentalmente seguro é: “A consulta nominal realizada no SGC não retornou contratos para as duas empresas.”
Essa é a prova disponível e não iremos um centímetro além dela.
PERGUNTAR NÃO OFENDE
(MAS R$ 638 MILHÕES RECOMENDAM UMA BOA RESPOSTA)
Por que a busca nominal no SGC não retornou contratos das duas maiores construtoras da UGPE?
Os instrumentos estão registrados sob outras grafias ou razões sociais?
Estão vinculados a outro CNPJ?
Estão publicados em outro sistema?
Os contratos financiados por organismos multilaterais seguem cadastro próprio?
Se seguem, onde o cidadão pode consultá-los?
Por que uma base pública de pagamentos exige reconstrução por CNPJ para revelar corretamente o ranking dos fornecedores?
E, sobretudo: se o Estado sabe qual contrato está pagando, por que encontrá-lo precisa virar investigação?
FECHAMENTO — O DINHEIRO ENCONTROU O DESTINO. O CIDADÃO PRECISA ENCONTRAR O CONTRATO.
Não há acusação contra as empresas nesta reportagem, há números. R$ 322,45 milhões para uma. R$ 316,20 milhões para outra. R$ 638,65 milhões juntas. 24,08% de tudo que a UGPE pagou.
E há uma busca pública realizada no sistema oficial que não retornou contratos sob os nomes pesquisados. Pode haver diferença de grafia, mudança cadastral, registro sob outra denominação, pode haver regime próprio decorrente de financiamento internacional, tudo isso permanece possível. E é justamente por permanecer possível que não será convertido em acusação. Entretanto,R$ 638,6 milhões em pagamentos públicos justificam uma exigência bastante menos dramática: que o cidadão consiga encontrar, sem caça ao tesouro, os documentos que explicam como esse dinheiro foi contratado.
Esta reportagem termina onde terminam os documentos. Onde há documento, esta reportagem afirma. Onde há apenas sinal, identifica-o como sinal. E onde a prova termina, termina também a conclusão.
FONTES PRIMÁRIAS
SGC — Sistema de Gestão de Contratos da SEFAZ-AM: consulta pública realizada em 25 de agosto de 2026 pelo campo “Nome do Contratado”, sem filtro de unidade gestora.
Banco de Dados SEFAZ 2026 — AFI: 11.686 pagamentos e 4.310 notas de empenho da UGPE, utilizados para consolidação de fornecedores, CNPJ, fontes e instrumentos.
REGRAS DE OURO
Busca nominal vazia não significa inexistência de contrato. Mudança de razão social não significa irregularidade. Empresas com o mesmo CNPJ devem ser consolidadas para análise financeira, mas preservadas suas razões sociais históricas.
Não foi realizada, segundo o material fornecido, consulta à Receita Federal, Junta Comercial ou cadastros de sanções.
A reportagem não afirma dolo, dano ao erário ou ilicitude.
Blindagem padronizada
A existência de pergunta jornalística não equivale a imputação de irregularidade. Quando duas ou mais explicações são possíveis, esta reportagem não escolhe a mais grave: apresenta o fato documentado, registra as hipóteses compatíveis com as fontes e aguarda os documentos capazes de resolvê-las.
Ausência de documento localizado não será tratada como prova de ausência do fato. O que não consta da fonte examinada será apresentado como lacuna documental — jamais convertido, por inferência, em certeza negativa.
NOTA — Duas construtoras receberam R$ 638,6 mi da UGPE; busca nominal no sistema não retornou seus contratos.
RESUMO — As duas concentram 24,08% dos pagamentos. Busca por nome voltou vazia, mas não prova inexistência de contrato.
