Desde 2023, escritório paulista supera Brasília em diárias; em 2026, passou a custear deslocamentos de servidores de outras secretarias
Manaus — Durante os primeiros anos da série, Brasília concentrava a maior parte das despesas com diárias da estrutura externa do Governo do Amazonas. Depois, o eixo mudou. Em 2020, a sede em Brasília empenhou R$ 45.016,50 em diárias e São Paulo R$ 4.243,00. Em 2022, Brasília chegou a R$ 87.342,50 e São Paulo a R$ 36.388,00. Mas, em 2023, a curva se inverteu: Brasília caiu para R$ 8.357,00 e São Paulo subiu para R$ 27.715,40. Em 2025, o escritório paulista registrou R$ 65.838,00 contra R$ 11.715,00 da sede federal. Até agosto de 2026, São Paulo computou R$ 40.765,60 e Brasília apenas R$ 1.260,00, consolidando a inversão de despesas.
A virada não é só contábil
Em 2026, o Escritório de Representação do Estado em São Paulo também emitiu 275 ordens de pagamento contra 243 da sede em Brasília. Pela primeira vez na série examinada, o escritório paulista não apenas passou a gastar mais em diárias, como também apareceu no centro da operação das missões.
Nova Delhi
Em 25 de fevereiro de 2026, o Chefe do Escritório de Representação em São Paulo autorizou o deslocamento de um servidor da SEDECTI (Chefe de Departamento de Atração de Investimentos e Comércio Exterior) para Nova Delhi, Índia. O objetivo foi participar da 40th International Food & Hospitality Fair — AAHAR 2026. O processo administrativo citado é da própria unidade de São Paulo, demonstrando uma unidade custeando missão de servidor lotado em outra secretaria.
O secretário de pesca também estava na missão
Duas semanas antes, publicação da Casa Civil já incluía na mesma missão o Secretário de Estado de Pesca. Portanto, a missão à Índia envolvia mais de uma pasta do governo, o que pode indicar articulação intersecretarial e atração de investimentos, sendo, em tese, perfeitamente compatível com a finalidade internacional da SERFI.
Custear outra secretaria não é, por si, irregular
Essa blindagem precisa ser explícita. O Estado é uma única pessoa jurídica, sendo legítima a cooperação ou o custeio centralizado. Portanto, pagar diária de servidor de outra pasta não significa desvio. O problema documental é que a norma que autoriza esse arranjo específico não foi localizada na fonte pública aberta examinada.
Não é um caso isolado
As resenhas publicadas entre 2021 e 2026 mostram o escritório de São Paulo relacionado a agendas em múltiplos órgãos (SEFAZ, PGE, SECOM, SEAD), acompanhamento do Grupo Ipiranga e eventos internacionais. O escritório funciona como plataforma de articulação para outras áreas do governo. A pergunta é: com que regra e com que resultado?
Sete países
Nas ordens com destino explícito, foram identificadas missões para Índia, Espanha, Hong Kong, África do Sul, Reino Unido, Estados Unidos e Colômbia. O valor total dessas nove ordens de pagamento internacionais somou R$ 89.622,60. É importante ressaltar que esse valor não representa todas as despesas internacionais da SERFI, mas sim apenas as ordens em que o campo de destino apareceu explicitamente no texto consultado.
As missões identificadas
Os destinos e valores somados no levantamento foram: Nova Delhi (R$ 20.018,60), Barcelona (R$ 14.175,00), Hong Kong (R$ 14.025,00), Joanesburgo (R$ 13.000,00), Londres (R$ 11.700,00), Phoenix (R$ 8.769,60) e Bogotá (R$ 7.934,40). Repetimos: destino internacional não é sinônimo de turismo, pois o arquivo identifica finalidade institucional em várias dessas viagens.
114 ordens citam o SCDP
O levantamento identificou 114 ordens de pagamento que citam número no SCDP (Sistema de Concessão de Diárias e Passagens), somando R$ 222.444,54. Cada número está associado a um processo de viagem, e aí aparece a maior lacuna de transparência da matéria: os relatórios de viagem não são publicados.
O que o Amazonas trouxe de volta?
Viajar é custo, mas pode ser investimento. Uma missão internacional pode gerar acordos, parcerias ou financiamentos. O SCDP produz relatórios, mas eles não estão disponíveis publicamente. O cidadão consegue ver quanto foi gasto, quem viajou e para onde, mas não consegue ver o que voltou para o Estado.
Dois nomes concentram 66%
No conjunto das ordens de diárias, o levantamento identificou R$ 325.548,32 distribuídos em 182 ordens. Desse total, duas pessoas concentram R$ 215.340,50 (66%): o Chefe do Escritório de Representação em São Paulo (R$ 115.694,00) e o ex-secretário da SERFI entre 2019 e 2022 (R$ 99.646,50).
Concentração não é irregularidade
Cargos dirigentes viajam mais por razões funcionais de representação e negociação. Portanto, a concentração demonstrada não significa desperdício ou abuso, mas sim a centralização natural da despesa na chefia da pasta.
As COPs são um exemplo claro de atividade-fim
Participar de feiras pode abrir mercado e participar de COPs (como COP26 ou COP27) coloca o Amazonas no debate climático global para atrair capital e financiamento. A passagem ou a diária não são o problema; a pergunta central é o retorno obtido. O documento que fecharia o ciclo — o relatório de resultado — não está disponível na base examinada.
O título “agência de viagens do governo” é bom — mas arriscado
Como recurso literário funciona, mas como afirmação factual é excessivo. O escritório de São Paulo não vende passagens nem organiza excursões privadas; ele atua estritamente autorizando e custeando missões oficiais.
A verdadeira inversão
O dado mais importante é que Brasília perdeu a centralidade financeira nas diárias, enquanto São Paulo ganhou e passou a custear servidores de outras pastas. Isso sugere uma mudança operacional expressiva, mas falta o documento que explica essa transição jurídica.
Esta reportagem não afirma que qualquer viagem tenha sido irregular ou que houve turismo pessoal e desperdício. Não indica que o custeio de outras secretarias seja ilegal ou que a concentração de 66% represente favorecimento. Os documentos demonstram estritamente que, a partir de 2023, São Paulo passou a superar Brasília em diárias, autorizou missão de servidor da SEDECTI para a Índia em 2026, nove ordens com destinos internacionais explícitos somaram R$ 89.622,60 e dois dirigentes concentram 66% das diárias identificadas, sem relatórios de resultados disponíveis na interface pública.
Perguntar não ofende
Qual foi a razão administrativa para a inversão de diárias entre Brasília e São Paulo a partir de 2023? Qual norma ou ato formal de delegação autoriza o Escritório de São Paulo a custear diárias de servidores lotados em outras secretarias? Quanto o Amazonas investe no total em missões internacionais e qual indicador mostra o que cada missão entrega de volta ao Estado?
Fechamento
Viajar pode ser parte do trabalho, mas voltar com resultado também precisa ser. Representar o Estado fora de suas fronteiras pode ser indispensável, mas o resultado dessa representação precisa ser visível dentro delas. A transparência de uma viagem oficial só se completa quando, além de mostrar quanto custou para ir, permite à sociedade saber o que trouxe na volta.
Fontes primárias e documentais
A apuração utiliza as bases AFI/SEFAZ-AM, as resenhas de autorização de deslocamento do Diário Oficial, contratos de agenciamento no SGC-AM e a legislação estadual. Todas as 5.882 ordens de pagamento foram lidas e as relativas a diárias foram conferidas individualmente.
- Viagem internacional / Destino distante: Não são sinônimos de irregularidade ou turismo.
- Custeio de outra pasta pela SERFI: É cooperação entre órgãos e não significa desvio automático.
- Concentração de 66%: Reflete a atuação dos cargos dirigentes e não prova favorecimento.
- Relatório não publicado: Aponta uma lacuna de transparência pública, não que o relatório seja inexistente.
- A regra final da trilogia: A viagem pode ser necessária e a diária legítima. O que precisa ser público é o elo entre o custo da viagem e o resultado prático que ela entregou ao Amazonas.
