CBM-AM empenhou R$ 1,65 bilhão entre 2018 e 2026; folha respondeu por R$ 1,49 bilhão, enquanto FUNESBOM empenhou R$ 21,9 milhões
MANAUS — Imagine colocar R$ 100,00 sobre a mesa do Corpo de Bombeiros. Na fotografia orçamentária acumulada entre 2018 e 2026, aproximadamente: R$ 90,50 correspondem aos empenhos identificados na folha.
O levantamento da execução oficial encontrou R$ 1.649.589.558,17 empenhados pelas unidades examinadas do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas. Desse total: R$ 1.493.239.323,96 aparecem associados ao credor genérico FOLHA DE PAGAMENTO. Percentual: 90,5%. É muito? É uma concentração orçamentária enorme. É irregular? NÃO.
BOMBEIRO NÃO É DESPESA SUPÉRFLUA
Essa precisa ser a primeira blindagem. O Corpo de Bombeiros existe porque existem bombeiros, soldos; encargos; benefícios; obrigações funcionais; e demais despesas relacionadas ao efetivo fazem parte do custo de manter a corporação funcionando. Portanto, esta reportagem não transformará 90,5% em sinônimo de: desperdício; inchaço; privilégio; ou excesso salarial. O arquivo não oferece qualquer base para isso.
A QUESTÃO NÃO É PORQUE O BOMBEIRO RECEBE. A questão é: QUAL ESPAÇO ORÇAMENTÁRIO RESTA PARA DAR AO BOMBEIRO OS MEIOS DE TRABALHO?
GENTE SEM EQUIPAMENTO NÃO APAGA INCÊNDIO
Uma corporação precisa de pessoal, mas precisa também de: viaturas; autobombas; ambulâncias; equipamentos respiratórios; roupas de aproximação; mangueiras; bombas; ferramentas de desencarceramento; equipamentos de salvamento; manutenção; combustível; tecnologia; quartéis.
Por isso, a composição do orçamento importa, não para colocar salário contra equipamento, mas para saber se o orçamento total é suficiente para sustentar: pessoal + estrutura + operação + investimento.
O ORÇAMENTO TRIPLICOU
O levantamento mostra crescimento expressivo do volume empenhado. Em 2018: R$ 90,5 MILHÕES. Em 2025: R$ 284,2 MILHÕES. É um salto nominal superior a três vezes o valor inicial. Mas o próprio material indica que grande parte desse crescimento acompanhou a folha. Isso não significa que o efetivo tenha triplicado. Não significa que salários tenham triplicado. Não significa aumento real nessa proporção. O ARQUIVO NÃO TRAZ ESSA DECOMPOSIÇÃO.
Assim, não faremos inferências que a base não permite.
O INVESTIMENTO VEIO EM ONDAS
O levantamento também identifica R$ 55,2 MILHÕES nas naturezas relacionadas a viaturas e equipamentos, concentrados em 2024 e 2025. Isso é importante, porque demonstra que houve esforço recente de investimento e impede uma narrativa simplista como: “O Corpo de Bombeiros não investe.” INVESTIU.
A pergunta é: O QUE ESSES R$ 55,2 MILHÕES EFETIVAMENTE ENTREGARAM À CORPORAÇÃO? Essa pergunta conversa diretamente com as matérias anteriores desta série.
É AQUI QUE A SÉRIE COMEÇA A SE ENCAIXAR
Na Matéria 2, encontramos R$ 1,88 milhão em empenhos de emendas ainda sem liquidação na fotografia examinada. Na Matéria 3: anos de manutenção de frota por rede credenciada, sem detalhamento analítico na vitrine financeira examinada. Agora encontramos: R$ 55,2 MILHÕES EM INVESTIMENTOS CONCENTRADOS EM 2024 E 2025.
A pergunta deixa de ser apenas contábil, passa a ser física: quantas viaturas chegaram? quantos equipamentos entraram em operação?
MAS HÁ UM DADO POSITIVO QUE NÃO SERÁ ESCONDIDO
Este é um ponto que considero editorialmente muito importante. O próprio levantamento registra que a execução do CBM-AM apresenta características de disciplina contábil: conferência a zero; restos relativamente baixos; reconhecimento de dívida residual; e ausência do padrão recorrente de “sem cobertura contratual” identificado em outras investigações.
Isso precisa entrar. Por quê? Porque investigação séria não procura apenas aquilo que acusa, REGISTRA TAMBÉM AQUILO QUE FAVORECE O INVESTIGADO.
Se a execução apresenta organização formal superior à encontrada em outros órgãos, O LEITOR PRECISA SABER.
ENTÃO QUAL É O PROBLEMA?
Não é “bagunça contábil”. O arquivo não sustenta isso. Não é “dinheiro sem contrato”; muito menos “folha irregular”. A questão é estrutural: UM ORÇAMENTO FORTEMENTE CONCENTRADO EM PESSOAL EXIGE SABER SE O ESPAÇO RESTANTE É SUFICIENTE PARA A CAPACIDADE OPERACIONAL.
É uma discussão de planejamento, não de criminalização.
E ENTÃO APARECE O FUNESBOM
O Corpo de Bombeiros possui um instrumento específico: FUNESBOM — Fundo Especial do Corpo de Bombeiros Militar. O levantamento encontrou, na UG correspondente, entre 2018 e 2026 R$ 21.916.582,02 EMPENHADOS. Média aritmética aproximada: R$ 2,4 milhões por ano. Maior exercício identificado: 2024 — R$ 4,5 MILHÕES.
À primeira vista, alguém poderia dizer: “O fundo movimenta pouco.” Mas essa frase ainda não pode ser concluída.
FALTA METADE DA EQUAÇÃO
Para saber se um fundo está: subutilizado; represado; esvaziado; ou funcionando adequadamente, precisamos conhecer dois lados: QUANTO ENTROU e QUANTO SAIU. O arquivo nos mostra o lado da despesa, não mostra a arrecadação anual das receitas vinculadas. O próprio levantamento reconhece essa limitação. Logo: NÃO PUBLICAREMOS QUE O FUNESBOM “NÃO GIRA”.
Ainda não sabemos.
R$ 21,9 MILHÕES PODEM SER MUITO OU POUCO
Tudo depende da arrecadação. Imagine dois cenários. Se o FUNESBOM arrecadou: R$ 22 milhões e aplicou aproximadamente R$ 21,9 milhões, o quadro seria um. Mas se arrecadou R$ 100 milhões e empenhou R$ 21,9 milhões, a história seria completamente diferente. Esses números são apenas exemplos hipotéticos para demonstrar a lógica — não são dados do fundo.
Por isso, sem receita não existe taxa de execução financeira confiável.
A PERGUNTA DE R$ 21,9 MILHÕES
O levantamento identifica aplicações do FUNESBOM em itens como: locação; produtos veterinários; e outras aquisições de menor valor. Também menciona contrato de locação em torno de: R$ 252 MIL POR ANO.
Não há irregularidade nisso. Um fundo pode financiar despesas diversas previstas em sua finalidade legal. A pergunta correta é: QUAL É A POLÍTICA DE APLICAÇÃO DO FUNESBOM? Existe plano anual? Prioridades? Metas? Reserva para reequipamento? Critérios? Saldo acumulado?
A RECEITA É O DOCUMENTO QUE MUDA A MATÉRIA
Esta investigação tem uma característica interessante, uma única tabela pode mudar completamente seu rumo. Precisamos, ano a ano: arrecadação do FUNESBOM; dotação; empenhado; liquidado; pago; saldo financeiro; restos; superávit acumulado.
Com isso poderemos responder: o fundo aplica aquilo que arrecada? Sem isso: QUALQUER CONCLUSÃO SOBRE “DINHEIRO PARADO” SERIA PREMATURA.
NÃO EXISTEM “APENAS 9,5% PARA O RESTO”
Também corrigiremos essa simplificação. Se 90,5% dos empenhos estão associados à folha, aritmeticamente restam 9,5% no universo acumulado analisado. Mas isso não significa que 9,5% seja todo o dinheiro disponível para atividade-fim em cada ano. Há variações anuais; há naturezas distintas; fontes diferentes, há o FUNESBOM e há diferença entre: empenhado; liquidado; e pago.
Por isso, não construiremos uma manchete como: “Bombeiros sobrevivem com 9,5%.” Seria dramática e metodologicamente imprecisa.
A PERGUNTA É SE O ORÇAMENTO TOTAL É SUFICIENTE
Essa é a formulação madura. Possivelmente 90,5% em folha seja compatível com a estrutura de uma corporação militar intensiva em pessoal. Talvez seja elevado comparativamente, NÃO SABEMOS.
Para dizer, precisaríamos comparar com outros Corpos de Bombeiros usando: mesmo período; mesma metodologia; mesmas rubricas; mesmo tratamento de encargos; e estrutura institucional semelhante. O arquivo não faz esse cotejo. Portanto: NÃO CRIAREMOS UM PADRÃO NACIONAL IMAGINÁRIO.
O BOMBEIRO É O ÚLTIMO A SER CULPADO
Há uma escolha editorial que quero tornar explícita. Se o orçamento está apertado para equipamentos, isso não transforma salário de bombeiro em problema. O militar: não define o orçamento estadual; não define a dotação da corporação; não escolhe quanto será investido; não determina o tamanho do fundo; não decide sozinho o plano de reequipamento. Logo, esta reportagem não colocará: BOMBEIRO CONTRA VIATURA.
A pergunta é: o orçamento público financia adequadamente os dois?
BLINDAGEM DE LEITURA
Esta reportagem não afirma que 90,5% de folha seja ilegal, excessivo ou incompatível com a corporação. Não afirma que servidores ou militares recebam salários indevidos. Não afirma inchaço de pessoal. Não afirma que a corporação opere com apenas 9,5% do orçamento. Não afirma que R$ 51,3 milhões sejam todo o recurso disponível para atividade operacional. Não compara diretamente R$ 51,3 milhões pagos fora da folha entre 2020 e 2026 com R$ 1,65 bilhão empenhado entre 2018 e 2026 para produzir percentual artificial. Não afirma que o FUNESBOM esteja parado. Não afirma que exista receita represada. Não afirma subutilização do fundo. A arrecadação não consta do material analisado.
Não afirma ausência de investimento, ao contrário: o levantamento identifica R$ 55,2 milhões concentrados em viaturas e equipamentos em 2024-2025, eregistra também aspectos positivos da disciplina formal da execução do CBM-AM.
O que podemos afirmar é: 90,5% DOS R$ 1,65 BILHÃO EMPENHADOS NO PERÍODO ANALISADO ESTÃO ASSOCIADOS À FOLHA.
Isso é suficientemente relevante.
PERGUNTAR NÃO OFENDE
MAS UMA CORPORAÇÃO DE EMERGÊNCIA PRECISA SABER QUANTO CUSTA ESTAR PRONTA
Quanto o CBM-AM empenhou, liquidou e pagou por ano:
em pessoal?
custeio?
manutenção?
investimento?
viaturas?
equipamentos?
EPIs?
Quanto o:
FUNESBOM
arrecadou em cada exercício desde 2018?
Quanto recebeu especificamente das taxas vinculadas?
Quanto aplicou?
Qual o saldo financeiro atual?
Há superávit acumulado?
Existe plano plurianual de reequipamento?
Quantas viaturas a corporação considera necessárias?
Quantas possui?
Quantas estão operacionais?
Quantas precisam ser substituídas?
Qual a idade média da frota?
Quanto seria necessário por ano para manter o nível operacional considerado adequado?
E, finalmente: QUAL É O TAMANHO REAL DO DÉFICIT DE REEQUIPAMENTO DO CORPO DE BOMBEIROS DO AMAZONAS — SE ELE EXISTE?
FECHAMENTO — SALÁRIO NÃO APAGA INCÊNDIO. EQUIPAMENTO TAMBÉM NÃO APAGA SOZINHO.
A conta do Corpo de Bombeiros não admite falsas escolhas. Não existe corporação sem bombeiro. Mas bombeiro sem viatura; EPI; mangueira; equipamento respiratório; ferramenta; manutenção; quartel; e tecnologia também não consegue cumprir integralmente sua missão. É por isso que os 90,5% precisam ser compreendidos corretamente. Não como acusação contra a folha, COMO RADIOGRAFIA DO ORÇAMENTO.
Entre 2018 e 2026: R$ 1,649 BILHÃO EMPENHADO. Folha: R$ 1,493 BILHÃO. FUNESBOM: R$ 21,9 MILHÕES EMPENHADOS. Investimentos em viaturas e equipamentos concentrados em 2024 e 2025: R$ 55,2 MILHÕES.
Os números não contam uma história de ilegalidade, contam uma história de PRIORIDADES E CAPACIDADE FINANCEIRA.
Talvez o orçamento seja suficiente, os indicadores operacionais podem demonstrar; provavelmente seja insuficiente.
O plano de reequipamento pode demonstrar. Talvez o FUNESBOM aplique praticamente tudo aquilo que arrecada. A receita demonstrará. É possível que acumule recursos, o saldo demonstrará. É por isso que não chamaremos o fundo de parado antes de conhecer seu caixa.
Não chamaremos salário de problema, não diremos que o bombeiro sobrevive de 4% e não criaremos crise financeira onde os documentos ainda não a demonstram. A pergunta será mais difícil — porque é mais séria: DEPOIS DE PAGAR AS PESSOAS QUE SALVAM VIDAS, O AMAZONAS DESTINA RECURSOS SUFICIENTES PARA QUE ELAS TENHAM COM O QUE SALVÁ-LAS?
Essa resposta não está apenas no contracheque, está na garagem; no almoxarifado; nos quartéis; nos equipamentos; no FUNESBOM; e no tempo que uma viatura leva para chegar quando alguém liga pedindo socorro. Porque orçamento de bombeiro não se mede apenas pelo que foi gasto, MEDE-SE PELA CAPACIDADE DE ESTAR PRONTO QUANDO O INCÊNDIO COMEÇA.
Esta reportagem termina onde terminam os documentos. Onde há documento, esta reportagem afirma. Onde há apenas sinal, identifica-o como sinal. E onde a prova termina, termina também a conclusão.
FONTES PRIMÁRIAS E DOCUMENTAIS
A reportagem utiliza a execução orçamentária oficial das UGs 022104 e 022702, no período de 2018 a 2026. O levantamento registra R$ 1.649.589.558,17 empenhados e R$ 1.493.239.323,96 associados à folha.
Para o FUNESBOM, a base identifica R$ 21.916.582,02 empenhados no período, mas não contém a arrecadação necessária para medir eventual represamento ou taxa de execução dos recursos vinculados.
REGRAS DE OURO
Folha elevada não será chamada de desperdício. Salário de bombeiro não será tratado como adversário do investimento. 90,5% é participação acumulada dos empenhos classificados como folha no universo analisado.
Não diremos que a corporação “vive com 9,5%”. Não misturaremos períodos e estágios da despesa para fabricar percentuais. R$ 55,2 milhões em investimentos de 2024-2025 serão registrados como contraponto indispensável.
A disciplina formal da execução encontrada no levantamento também será reconhecida. R$ 21,9 milhões empenhados pelo FUNESBOM não serão confundidos com arrecadação.
O FUNESBOM não será chamado de parado, represado ou subutilizado sem conhecer receitas e saldos. Comparações com outras corporações somente serão feitas com metodologia equivalente.
E a regra central: 90,5% DE FOLHA NÃO É UMA ACUSAÇÃO. É UMA PERGUNTA SOBRE QUANTO CUSTA FINANCIAR, ALÉM DO EFETIVO, A CAPACIDADE OPERACIONAL DA CORPORAÇÃO.
NOTA — Folha respondeu por 90,5% dos R$ 1,65 bilhão empenhados pelo CBM-AM entre 2018 e 2026.
RESUMO — FUNESBOM empenhou R$ 21,9 mi no período, mas a base não traz arrecadação; sem esse dado, não é possível afirmar represamento.
